O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

3 opiniões sobre “O manipulador de vidas”

  1. O miúdo no quarto com o jogo de computador é o mesmo que o jovem millennial que vive o “aqui e a agora”, sem género, sem história, sem fronteiras… sem outra identidade que aquela que vai criando digitalmente nos perfis das redes sociais, infinitamente adaptável, mas infinitamente vazia também… não há carrinho de bebé antes de existir e não haverá nada mesmo depois de existir… vivemos um momento histórico interessante, alimentado a tecnologia e ideologia… seria interessante ler Nabokov sobre o novo milénio… Magnífico texto. Um abraço, Nuno Veríssimo

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    1. Veríssimo, primeiramente, sê bem-vindo.

      Pois que há muito estamos a ver essa degeneração da memória, do passado, da nossa História. Um assassinato à luz do dia. Parece-me mesmo o tempo do agora-e-até-nunca-mais. Gostava de acreditar que escrever a respeito d’isso tudo pudesse melhorar um bocadinho (i.e. forma de resistência). Mas, pelos vistos, o comboio já bem saltou fora dos carris — e sabemos como essas jornadas terminam.

      Forte abraço e agradável domingo para ti.

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