Tinha uma abordagem utilitária ao vestuário

A minha tia-avó, que até onde sei não teria motivo nenhum para mentir, contou-me sobre um determinado jardineiro que trabalhou na casa dela durante mais de quinze anos, e que sempre se mostrara muito afável, delicado com as plantinhas, ela disse, jardineiro correto, leal, honesto. Mais de quinze anos, nenhum problema, nenhuma reclamação, bom jardineiro. Até o dia em que ele pedira licença à minha tia-avó, e minha tia-avó com a benevolência que lhe é de praxe pedira ao jardineiro que entrasse, ou melhor, que ficasse mesmo à vontade, mais de quinze anos, dissera a minha tia-avó ao jardineiro, mais de quinze anos. O jardineiro entrou, tirou calmamente o chapéu, poisou o chapéu na mesa. Minha tia-avó ficou a observá-lo, a esperar que o jardineiro dissesse o que queria dizer. Em silêncio absoluto, o jardineiro sacou do bolso uma pistola Winchester Magnum Rimfire, primeiro apontou para a minha tia-avó, depois apontou para si e finalmente apertara o gatilho. Mais de quinze anos, ela repetiu consigo mesma, mais de quinze anos.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

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