Mãe do ilustrador

O ilustrador permitia-se apenas desenhar e comentava mesmo com toda a gente que desenhava o dia inteiro. Isso porque a mãe dele, uma mulher rica, pagava-lhe por assim dizer uma mesada muito generosa. Como não precisava de trabalhar algures, o ilustrador só ilustrava e jamais se incomodou com o fato de ninguém comprar as ilustrações que produzia. Permitiu-se, portanto, ser um artista independente. Mas, como se sabe, as pessoas morrem. E quando a mãe do ilustrador caíra de um penhasco de duzentos metros — conforme o relato de testemunhas —, o ilustrador descobrira sem demora que ela havia deixado toda a herança para um jovem rapaz que conhecera aquando de uma viagem que fizera para Dublin, no outono de dois mil e quinze. Sem a mesada generosa da mãe, o ilustrador viu-se na obrigação de procurar emprego. E desde então não toca mais nas canetas e nos pincéis.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

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