O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas

Desde já esclareço que utilizo o verbo conhecer com aquela despreocupação do viajante que passa duas horinhas ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris e volta para casa a pavonear que conheceu a França. Pois que tietagem pressupõe atitude, afinal. E quando um mero escriba se mete a falar sobre a admiração que sente por determinado escritor famoso, corre-se sem dúvida o risco de cair para o bobo. Em julho de dois mil e doze saí de Brasília dentro de um Nissan Tiida para percorrer mil duzentos e cinquenta e três quilômetros de estrada até a Festa Literária Internacional de Paraty — a boa e simpática Flip. Era a décima edição da festinha livresca e permiti-me grandes expectativas porque 1) Enrique Vila-Matas e 2) Jennifer Egan, Ian McEwan, Dany Laferrièrre, Alejandro Zambra. Mas a primeira coisa em que realmente reparei no lugarejo não tinha muito que ver com literatura: foi a quantidade expressiva de seres humanos que andavam lá para a chamada melhor idade. Velhinhos e velhinhas tropeçando nas ruelas de paralelepípedos de Paraty. Pensei com os meus botões que teria sido gira se a organização também tivesse se dado conta de que boa parte do público leitor brasileiro já passara dos sessenta/setenta carnavais e construísse caminhos mais seguros, pelo menos durante o evento. Nada. À guisa de desabafo compartilho a tese que elaborei quando diante dessas negligências: acredito que os idosos têm medo de reclamar e depois serem tachados de «velhinhos rabugentos», e a organização Flip bem sabe disso, e fica quietinha na dela porque não quer investir dinheiros em caminhos seguros para aqueles que, no fim de contas, são bem os que financiam a coisa toda. A cidade é bonita e agradável para os jovens adultos. Depois de um tempinho a perambular pelo centro, confesso que senti enorme vontade de cortar os pulsos por conta dos comerciantes de poesia que me abordavam a cada dois passos para ler estrofes de gosto duvidoso ao estilo: estas palavras, meu amigo, são Paraty. É necessário um esforço considerável para não cair numa branda melancolia e para não começar a achar toda aquela overdose de literatura um verdadeiro absurdo. Felizmente, percebi ligeiro que havia uma espécie de antídoto «contra» os poetas de rua: sentar-se nalgum canto, abrir um livro do Foster Wallace e responder numa qualquer língua estrangeira que je ne parle pas portugais. É claro que depois de me utilizar desse subterfúgio canhestro eu comecei a me sentir culpado e por vezes cheguei mesmo a abordar poetas-comerciantes na rua para pedir poema: vá lá, leia-me alguma coisa. Eles abriam sorriso que ia até Angra dos Reis e citavam: o corpo, a alma, Paraty, não fazem sentido. Fim da tardinha, chegara o momento de ir ao bate-papo Vila-Matas/Zambra. Este meu jovem coração se sublevou e assaltou-me o primeiro sentimento de mamãe-eu-sou-patético-idolatro-escritores. Duas horas depois, estava eu na fila de autógrafos a ver de longe a cabeça grisalha do Vila-Matas, as mãos disciplinadas do escritor espanhol num surto de assinaturas e os leitores que saíam com os livros coloridinhos editados pela saudosa Cosac Naify. Quando cheguei perto o bastante para conseguir escutar o que o Vila-Matas falava para as pessoas e o que as pessoas falavam para o Vila-Matas reparei que ninguém dizia nada, absoluto silêncio. O processo se passava da seguinte maneira: ser humano se aproximava do Vila-Matas, jogava o livro do Vila-Matas sobre a mesa, Vila-Matas abria o livro, assinava, devolvia o livro para ser humano e pronto. Não me orgulho em dizê-lo, mas essas cenas Tempos modernos — com o livro a fazer as vezes do parafuso — causaram-me uma incontrolável Schadenfreude (prazer pelo infortúnio alheio). Vila-Matas não levantava a cabeça porque ninguém lhe dirigia a palavra, parecia óbvio. E muito provavelmente ninguém lhe dirigia a palavra porque Vila-Matas não levantava a cabeça. Resolvi colocar essas ruminações em prática. Na minha vez, fiquei parado numa postura ridícula, hoje consigo perceber com clareza, numa postura imbecil e teatral diante do Vila-Matas. Daí mostrei o exemplar de O mal de Montano — que juntamente com O náufrago, do Bernhard, foi a obra que mais reli na vida — e lhe disse: el libro más increíble de la literatura española, sin dudas. Vila-Matas levantou a cabeça. Arregalou os olhos. Fitou-me por alguns segundos: ¿Cómo te llamas, joven? Eu disse meu nome, ele autografou na folha de rosto do Montano e estendeu-me a mão: ¡Suerte, chico! Estarrecido, fiquei ainda uns bons trinta minutos perto da fila a ver se ele iria conversar com mais alguém. Não conversou. A linha de montagem dos leitores tinha voltado a funcionar: joga o livro, o Vila-Matas assina, pega o livro, vai embora. Em silêncio. Absoluto.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

One thought on “O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas”

  1. Não apenas o texto está ótimo, trouxe-me memórias incríveis de Paraty e das loucuras de escritores, essa gente meio destrambelhada, mesmo que à margem do processo todo, como um poeta desencontrado que recita versos ruins e não nota. Os velhinhos, categoria da qual me aproximo a passos galopantes, são também uma gente curiosa, os mantenedores da leitura num país inteiro constituído de analfabetos, inclusive entre os principais governantes de todos os quadrantes. Os velhinhos, quero crer, certamente os responsáveis por ajudar a manutenção da roda da barafunda que são os eventos literários. Senti falta do seu texto a respeito da outra mesa de Vila-Matas, sozinho, a ler um texto com intenção de afastar os leitores (o que efetivamente conseguiu), queria suas impressões por escrito desse fenômeno, mas, enfim, não se pode querer tudo. E o que você deu é muito, muitíssimo.

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