A turma — uma peça breve

Personagens

ARQUITETO
ESCRITOR
FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Representa-se em Brasília no princípio de dois mil e dezoito

No salão de festa de um qualquer bloco de uma qualquer quadra na Asa Sul: ambiente pequeno, bagunçado, uma porta, duas janelas (à direita e à esquerda do espectador), parede branca ao fundo. Perto da cozinha, mesa redonda com cinco cadeiras — garrafas de vinho, cerveja, vodca e uísque espalhadas sobre a mesa. Clima de fim de festa, luz baixa. Televisão ligada, mas sem áudio. Passa das nove da noite.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO, ARQUITETO, ESCRITOR

Funcionário Público — trinta e oito anos, acima do peso, cabelo encaracolado, têmporas grisalhas, barba por fazer, está sentado à direita da mesa, bebe cerveja. Arquiteto — vestido de forma impecável, cabelo engomado, óculos com armações arredondadas, sentado ao centro, segura um copo de uísque e pretende acender um cachimbo em breve. Escritor — magro, em mangas de camisa, calça cáqui, está a brincar com uma caneta enquanto observa os outros dois amigos conversando.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
É que todo ano
é a mesma

ARQUITETO
Construa essas frases
direito porque ninguém
lhe entende

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Quero dizer que todo ano
é a mesma coisa
esses encontros de turma
e toda a gente quer saber
o que cada um lá fez
não fez
encontro estúpido

ARQUITETO
E por que vai a todos

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Porque li Marquês de Sade
em criancinha
o que acha
porque faço qualquer coisa
para me ver livre
de casa
da Vera

(Arquiteto acende o cachimbo, inspira a fumaça do cachimbo)

ARQUITETO
E Vera
Verinha
como vai

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Então a verdade é que
só temos dez doze se muito
quinze anos durante os quais
podemos dizer que fomos
protagonistas
de alguma coisa
ou durante os quais
nós nos permitimos sonhar
em ser protagonistas de
alguma coisa
os anos vinte
basicamente
depois
passamos dos vinte
é ladeira abaixo

ARQUITETO
Eu quero saber
é da Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Ter lá os complexos de grandeza
e poucos dão conta de ser alguma
coisa mesmo
no fim de contas
passamos e não somos nada
é isto

(Escritor joga a caneta sobre a mesa, toma um gole de vodca com Fanta)

ESCRITOR
Arquiteto perguntou
da Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Ah mas não pensem
vocês que eu cá não tive
os meus complexos de
grandeza
porque eu os tive
e muito

ESCRITOR
Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Eu teria sido
um grande músico
vocês sabem
crooner e violão
voz boa
boa mesmo
lírica
música de primeira
voz boa e violão bom
sim
tudo de primeiríssima

(Arquiteto fuma o cachimbo, Escritor fica a observar Funcionário Público)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Mas daí vocês sabem
quando vemos
quando paramos
para pensar
temos os miúdos
e a esposa
(Arquiteto faz que vai interromper, não interrompe)
a esposa trabalha uma
barbaridade
e eu tenho mesmo as minhas
obrigações como provedor de família
sim provedor de família
colocar o pão na mesa

ARQUITETO
Arcaico

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Por que diz isso

ARQUITETO
Arcaico pedante
ingrato

ESCRITOR
Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Mas esses encontros
nunca me fizeram bem
nunca
o Médico a dizer que construiu
um império
hospital
magnífico
a Advogada a dizer que
resolveu não sei quantos casos
que ganha um salário incrível
magnífico
cliente estilo
Banco do Brasil
tem lá um gerente
só para si

ARQUITETO
Rancoroso

(Arquiteto olha para Escritor)

ESCRITOR
Sim
rancoroso

(Funcionário Público enfurece-se, olha para Escritor)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Arquiteto tem empresas
logrou êxito sem dúvida
vai à Alemanha
na próxima semana
congresso de arquitetura
Frankfurt
estou certo

ARQUITETO
Certíssimo

(Funcionário Público continua a olhar para Escritor)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Mas você
mas você
o que faz
fica ali a escrever os livrinhos
ou melhor
a punhetar os livrinhos
masturbação verborragia
a dizer
céus! sou grande
sou o maior
e que as pessoas se lembrem
de mim quando eu estiver
já há muito embaixo da
terra
sempre foi assim

ARQUITETO
Sempre
impressionante
desde a oitava série

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
E tem lá coragem
de me chamar de rancoroso
a desfaçatez

ARQUITETO
Nem livro publicado tem
o coitadinho

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Complexo de
grandeza
triste
você é
um homem triste

(Escritor, num só gole, entorna outro copo de vodca com Fanta)

ESCRITOR
Pratico minhas caminhadas
ando na minha bicicleta
depois leio
passo a manhã inteira a ler
os clássicos
só os livros publicados antes
de dois mil e um
até Sebald
minha literatura termina em
Sebald

ARQUITETO
Sebald
gosto dele
mas o que você escreve
Escritor
digo
atualmente

ESCRITOR
Uma grande obra
(Funcionário Público solta uma gargalhada)
sim grande obra

(Arquiteto olha para o relógio com pulseira de ouro)

ARQUITETO
A mim também
sempre me enojaram
esses encontros
nossa turma
(puxa o fumo do cachimbo, dá uma baforada no Escritor)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Sim um fracasso
verdadeiro fracasso
voz e violão e
fracasso

ESCRITOR
Como vai
a Verinha

(cai o pano)

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

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