Neblinas, quarta-feira

A escrita, simplesmente, forma de desaparecer — ela diz. Sentar-se nalgum canto, alheado, sumir-se. Mas precisamos estar a fugir de algo, ou de alguém, ou de tudo. Caso o contrário — ela continua enquanto leva a chávena de café aos lábios —, caso o contrário, estamos aqui a lidar com um ser humano sozinho e nada mais. Daí eu digo a ela que me adaptaria bastante bem numa habitação desconfortável: gosto dos hotéis, por exemplo. Talvez você seja de natureza felina, ela diz. Escrever, isso basta, viver no interior da nossa alma, isso basta. Ela acende um cigarro, me oferece um cigarro, eu digo que não fumo há quinze anos. Ela insiste. Eu aceito o cigarro. Tendências de isolamento, ela diz e solta fumaça. O mistério humano, ela diz.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

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