Neblinas, quarta-feira

A escrita, simplesmente, forma de desaparecer — ela diz. Sentar-se nalgum canto, alheado, sumir-se. Mas precisamos estar a fugir de algo, ou de alguém, ou de tudo. Caso o contrário — ela continua enquanto leva a chávena de café aos lábios —, caso o contrário, estamos aqui a lidar com um ser humano sozinho e nada mais. Daí eu digo a ela que me adaptaria bastante bem numa habitação desconfortável: gosto dos hotéis, por exemplo. Talvez você seja de natureza felina, ela diz. Escrever, isso basta, viver no interior da nossa alma, isso basta. Ela acende um cigarro, me oferece um cigarro, eu digo que não fumo há quinze anos. Ela insiste. Eu aceito o cigarro. Tendências de isolamento, ela diz e solta fumaça. O mistério humano, ela diz.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

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