Fortunato (excerto [2015])

PRIMEIRA CENA

Sete e quinze da manhã.
Pousada.
Fortunato entra pela direita. Está a segurar 
maleta marrom à moda antiga. O recepcionista fica a observá-lo. Fortunato ergue a mão para cumprimentá-lo.

FORTUNATO
Fortunato.

RECEPCIONISTA
Pois não.

FORTUNATO
Deixei meu automóvel em casa,
percebe? É a esposa.
Não está nada bem.
Vim de Uber.

RECEPCINISTA
Compreendo.

FORTUNATO
As coisas
não estão fáceis.
E se precisamos viajar,
uma viagem realmente
imprescindível, como se diz.
Preciso viajar, eu digo.
E fica para casa a esposa.
E se a esposa anda enferma.
Daí a viagem perde um pouco
o sentido.
E toda a gente lhe pergunta:
Mas vai viajar e deixa ali
a esposa enferma, isso não se faz.
Definitivamente.
(Olha ao redor)

RECEPCIONISTA
Compreendo.

FORTUNATO
A televisão fica ligada
até as tantas ou o quê?
(Ele tira uma brochura do
bolso do paletó)
É que não posso com as
televisões
elas me atrapalham
um bocado mesmo.
(Ele aponta para alguma
coisa específica na brochura)
Veja você mesmo: pousada para
repousos.
Pois, sim, cheguei de longe,
viagem imprescindível,
para descansar.
(O recepcionista chama o Oswaldo)

RECEPCIONISTA
Oswaldo, a TV.
(Oswaldo desliga a TV)

FORTUNATO
Assim está melhor.
(Inspira de forma dramática)
O ar do campo, percebe?

RECEPCIONISTA
Se o senhor diz.

FORTUNATO
Não venho pelo luxo.
Nada disso.
Forma alguma.
Não esbanjo.
Esposa doente.
Quero apenas descansar.
A esposa ficou.
Mas tenho o direito
de descansar, o senhor
não acha?

RECEPCIONISTA
Acho que temos todos lá o
direito de descansar, sr. Fortunato.

FORTUNATO
Um quarto simples, cama bem arrumada,
casa de banho, e é tudo.

RECEPCIONISTA
E quanto tempo pretende
cá ficar, sr. Fortunato?

FORTUNATO
Se a esposa bate as botas,
volto. Se não bate, fico mais um tanto.
Preciso descansar.

RECEPCIONISTA
Sete dias.

FORTUNATO
Justo.
(Recepcionista digita qualquer
coisa ao computador)
Eu costumava cá ficar
em criança.
(Gira a cabeça, um pouco
inconformado)
Está mudado.
Muito mudado.

RECEPCIONISTA
Sete dias.

FORTUNATO
Sete dias.

RECEPCIONISTA
Forma de pagamento?

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

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