Uma vez que temos um encontro marcado com uma amiga

Não é fácil de explicar quando (e como) é que o escritor ultrapassa de fato a fronteira para a chamada maturidade. Isso pode acontecer até bem cedo, depois de uma qualquer tragédia que lhe causa traumas — as chamadas cicatrizes da alma. Ou bem tarde, quando já é tarde demais. A escrita, como repetiram muitas vezes, é lá uma arte solitária, e quem a pratica está quase sempre muito particularmente só consigo mesmo. Daí a dificuldade de se perceber alterações. Há também quem defenda o alastramento da ingenuidade; que o escritor livre das mazelas do mundo adulto (i.e. real [?]) tem mais chances de anotar textos honestos. É a romantização do asceta, do retirado, do melancólico, da eterna criança. Imprescindível lembrar que apesar dos esforços de se permanecer completamente alheado, o monge lida lá com alguns seres humanos — e, como costuma ocorrer, cria laços, mesmo que sem muitas complexidades. Aqui o problema é orgânico: as pessoas simplesmente morrem. E não há antídoto eficaz para curar as dores da saudade. Quer dizer: não importa a fortaleza que se cria, o tamanho da murada, a finitude dará sempre um jeito de invadir o bunker do escritor. Rezam as crônicas que somente depois dessas provas, de lidar com a decadência dos queridos, lidar com a própria morte, com a imprevisibilidade da morte, e sentir o gosto de ferrugem que ela deixa atrás de si, somente depois disso o escritor entraria para a fase madura — fase em que não brinca mais com fadas, mas com fantasmas.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s