Deixemos o sr. Hampton descansar em paz junto aos amigos de papel

Durante mais de quatro décadas o sr. Hampton dedicara-se à literatura, como se diz, com afinco. Lia cinquenta, sessenta, às vezes noventa livros por ano. Portanto, não é difícil de perceber que a vida social do sr. Hampton — isto é: estar com outras pessoas algures — sofrera danos irreparáveis por conta dessa predileção por personagens feitos de tinta e celulose. O mecanismo de autodefesa desenvolvido pelo velho Hampton consistia em explicar que, quando abria uma obra literária, viajava ao longe, nunca estava só. E que a única diferença, ele dizia, a única diferença entre o turista livresco e o turista que pavoneia noutros cantos da esfera terrestre é que este corre riscos desnecessários, enquanto aquele escapa sem sair do lugar. Para o sr. Hampton, trancar-se, ler e libertar-se durante o processo era um subterfúgio contra os absurdos da realidade como qualquer outro. Se estamos lá fora — ele escrevera certa vez para um dos sobrinhos —, estamos sempre à mercê da violência, do machismo, do genocídio, do racismo, da tristeza, da dor, da estupidez e ainda podemos levar uma bala no pulmão a qualquer instante. Nenhum ser humano, ele acrescenta ainda, tem condições de encarar essa bagunça toda por muito tempo. Daí cada um criar o próprio esconderijo fantástico, desenvolver rotinas estabilizadas. Há quem prefira mergulhar nas séries detetivescas, outros vão ao cinema a cada dois dias, outros tantos assistem às novelas, ao futebol, fuxicam as crises existenciais dos famosos, empanturram-se de remédios tarja preta, consomem drogas pesadas e assim por diante. Basicamente, resumia o sr. Hampton, andamos por aí afora a viver várias coisas, menos a bendita da realidade.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

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