Pensou que talvez devesse tomar algumas providências a respeito do modo de se vestir para que o levassem mais a sério

Estar num estado de muita euforia (ou alienação patológica) para se cortejar as musas melancólicas sem correr o risco de perder completamente os botões, etcétera. Só os contentes, como se sabe, anotam para si as poesias taciturnas. Ocorrera qualquer coisa parecida com aquele escritor da miúda Alcalá de Henares, tipo estranho que nascera uns bons cinco séculos antes de o Doktor Freud criar os alicerces da chamada «ciência das almas». Pois que a loucura era freelancer nos campos do fidalgo Miguel de Cervantes Saavedra, pai do Quixote. Flerta com a maligna, dia-e-noite, por anos, instiga, cutuca, tira-a do sério. Até que a jaula se abre e o pobrezinho busca abrigo na casa da vovó, que está enferma, cá não fica por muito tempo. Alguma tia irascível, com rugas de dores & pavor a desenhar-lhe o corpo inteiro, de longe, quase não se escuta a megera: eu bem que avisei — ela diz. E esta constatação (ficou lelé, o sobrinho das letras) pareceu lhe proporcionar um regojizo imenso.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Vencedor do Concurso Nacional de Literatura «Prêmio Cidade de Belo Horizonte» 2012, com o livro de contos «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens».

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