O soldado caído

A língua inglesa possui verbo que de acordo com o contexto pode definir as ações de fotografar e atirar — to shoot. Fotógrafos de guerra retornam do combate por vezes desmiolados depois de tantas atrocidades e repetem como se fossem robôs: nós também atiramos. Desnecessário perder-se em análises para entender de que modo as fotografias podem ser utilizadas para enganar, matar, ludibriar, acusar, vender produtos que não funcionam etc. etc. A verdade é que a metáfora «câmera/arma de fogo» não é de modo algum disparatada. Ambas possuem mira, ambas precisam de gatilho para finalizar os respectivos alvos. Já se sabe que algumas comunidades isoladas têm verdadeiro pavor do aparato fotográfico: objeto estranho que assalta aquilo que há dentro de nós. Revela-se a fotografia e o que se vê é mesmo uma figura humana estática, paralisada pelo tiro do tempo, geralmente com os olhos arregalados. Pistola e obturador que transformam os vivos em fantasmas, em memórias que aos poucos desvanecem.

time-100-influential-photos-robert-capa-falling-soldier-24

Texto: P. R. Cunha
Fotografia: © Robert Capa

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s